A Banda Marcial do Colégio Marista completa amanhã, 19/5, quatro décadas de existência. No mesmo tom, veteranos e novatos se reencontraram e serão os protagonistas da comemoração
Ao entrar no colégio, décadas após a infância ou adolescência, é possível reviver outros tempos. A memória afetiva logo desperta. O sentimento ficou ali, impregnado no ar. Está na quadra de esportes, nas salas de aula, nas crianças que hoje correm e ocupam o lugar no pátio deixado por aqueles que cresceram e seguiram rumo ao futuro. Durante a visita, homens engravatados e mulheres elegantes voltam a ser os antigos colegas de classe que se chamavam por apelidos engraçados. Quem está no comando precisa pedir silêncio várias vezes, como se lidasse com os mesmos meninos e meninas cheios de empolgação de anos atrás.
É sexta-feira e vai começar mais um ensaio da Banda Marcial do Colégio Marista de Brasília. O grupo musical completará 40 anos de existência amanhã. A formação especial reúne gente de várias gerações. Todas unidas pelas lembranças calorosas de um passado bom, que se foi, mas deixou amigos, amores e frutos para a vida inteira. Com a intenção de celebrar os momentos memoráveis proporcionados pela banda, ex-integrantes decidiram se reunir e montar a Banda dos Veteranos do Colégio Marista de Brasília, para o aniversário de quatro décadas.
Amanhã, 19/5, às 16h, no Maristinha da 609 Sul, os mais experientes serão os primeiros a se apresentar. Em seguida, será a vez dos iniciantes, que ainda estudam no colégio. A ideia do reencontro surgiu há cerca de 1 ano. Mobilizaram-se pela internet, no Facebook. Reuniram mais de 500 pessoas com algum vínculo relacionado ao grupo. Há dois meses, começaram os ensaios, com quase 100 pessoas. Depois de um dia exaustivo de trabalho para a maioria, era momento de pegar o trompete, bumbo, pratos, trombone ou outros instrumentos e voltar a ser criança, sem preocupações excessivas ou obrigações cotidianas que tomam o lugar do lazer.
O fundador da banda foi o irmão Marista Lino Mouresco, em 1967. Ele cuidava exclusivamente do grupo. No início, havia penas fanfarra (instrumentos de percussão e metais sem pistom, como a corneta). Em 1972, o maestro Geraldo França — que virá para a comemoração de amanhã — tomou a frente do projeto e instituiu a banda marcial. Lino não sobreviveu para ver a festa planejada para amanhã. Ele morreu em 1997. Durante algum tempo, a banda foi deixada de lado. Somente em 2003, com a chegada do maestro Flamarion Mossri, o movimento reviveu seus tempos de ouro. É Flamarion, conhecido como Flama, que está à frente dos trabalhos ainda hoje.
Flama foi aluno Marista em 1976. Amanhã, vai reger colegas que dividiram a sala de aula com ele. “Terei essa honra. Estamos preparando uma festa e tanto”, afirmou o maestro. Ex-alunos estão vindo de vários lugares do Brasil para a comemoração. A banda tem ex-participantes hoje famosos, como a cantora Zélia Duncan. Há fotos no Facebook de Zélia vestida com o uniforme do grupo. Outros como Eduardo Canto e Gian Marco Aquino, da Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo, também tiveram passagem pela Banda Marcial do Colégio Marista de Brasília. “A intenção da banda é educar por meio da música, que estimula o desenvolvimento psicossocial dos estudantes, além de ajudar na concentração e no raciocínio”, destacou Flama.
A banda tem lugar cativo na memória de cada um dos membros. Quando passou a fazer parte da banda, José Augusto tinha 13 anos e ninguém o chamava pelo primeiro nome. Sobravam apelidos. Quase quatro anos depois, ele deixou o grupo. Desde então, nunca mais havia tocado o trombone de vara. Hoje, com 43 anos, José Augusto redescobriu o prazer da música, durante o reencontro dos veteranos. Ensaiou com disciplina nos últimos meses para voltar à boa forma musical. José levou a filha Beatriz, 13 anos, para assistir à preparação. “Disse a ela: isso é o que seu pai mais amava fazer quando tinha a sua idade. É como se o tempo não tivesse passado”.
Amor nos ensaios
Falar da banda marcial é relembrar o amor entre o casal Marcelo Berquó, 50 anos, e Daisy Leão, 46 anos. Os dois se conheceram durante os ensaios. Daisy carregava o brasão da banda. Marcelo tocava o trombone. Ela tinha 12 anos e traços orientais, ele, 16, e vivos olhos azuis. O namoro começou em uma das viagens, em 1978. Sete anos depois, veio o casamento. Nos anos seguintes, três filhas. Duas delas estudaram no Marista e também fizeram parte da banda, reavivando as lembranças dos pais. “Aqui conhecemos nossos melhores amigos. Construímos uma família. Por isso a ligação afetiva é tão forte”, disse Daisy.
Era normal que os primeiros beijos dos adolescentes fossem dados durante as reuniões e viagens da banda. “Tudo acontecia na banda. Os primeiros namoros, interesses, beijos. Amizades sinceras e duradouras”, relatou o servidor público Gilberto Almeida, 40 anos. Ele manteve os amigos daqueles tempos. “Hoje, a gente frequenta a casa um do outro, nós conhecemos as famílias uns dos outros, muitos se tornaram pais”, afirmou. João Teobaldo, 50 anos, hoje é economista. Antigamente, era conhecido por tocar caixa na banda. “A banda foi muito importante na formação do nosso caráter, nos ensinou o valor da amizade e se tornou uma família”, ressaltou.
Não era fácil entrar na banda, naqueles tempos. Havia uma rígida seleção e muitos candidatos. Fazer parte do grupo era sinônimo de status, de privilégios especiais e também de oportunidades de conhecer o mundo e fazer parte de momentos históricos. Os alunos viajavam para lugares diversos como São Paulo e Estados Unidos. Participavam de competições. A banda tocou nas posses de todos os presidentes da República, desde Fernando Collor de Mello. Recepcionou também o Papa João Paulo 2º, em sua visita ao Brasil em 1980. Amanhã, após a apresentação de novatos e veteranos, haverá exposição de fotos dessa época.
Essa é uma das poucas bandas marciais mantida por colégio particular, no Brasil. Em 1976, a rede Marista tinha 12 bandas, em todo o país. Atualmente, restaram apenas duas, a de Brasília e a de Ponta Grossa, no Paraná. Um dos grandes incentivadores da banda é o diretor-geral da escola, irmão Valter Pedro Zancanaro. O educador não mede esforços, inclusive financeiros, para manter vivo o grupo musical. “A banda faz parte da nossa identidade. A gente acredita em uma formação completa e sem a música isso não seria possível”, avaliou o diretor.
Formação
Essa formação de banda conta com trompetes, trombones, trompas, tubas e bombardinos, entre outros instrumentos, além de coreografia. Apresenta-se ao ar-livre e incorpora movimentos corporais ao ritmo do som. São comuns entre os militares e em colégios do interior.
“Aqui conhecemos nossos melhores amigos. Construímos uma família. Por isso a ligação afetiva é tão forte”. Daisy Leão, ex-integrante da banda
LEILANE MENEZES
Correio Braziliense - 18 de maio de 2012